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Comida de verdade: de norte a sul do Brasil, iniciativas de abastecimento alimentar transformam realidades

Mapeamento das experiências evidencia a potência dos circuitos curtos de produção e acesso ao alimento saudável

12 de agosto de 2020

Aos seis meses de idade, Franciele Bellé já frequentava a Feira dos Agricultores Ecologistas (FAE) no município de Porto Alegre (RS), considerada a primeira feira agroecológica do Brasil e uma das primeiras da América Latina. Enquanto seus pais comercializavam os alimentos ao lado do Parque da Redenção, Franciele já crescia entre as cores, os cheiros e os sabores dos alimentos produzidos não só pela sua família, que é descendente de agricultores da colonização italiana na Serra Gaúcha, mas por uma grande rede de agricultoras e agricultores familiares oriundos de diversas regiões do estado.

Quem compra os alimentos produzidos por Franciele, sabe que leva para casa comida de verdade. Saudável, produzida com cuidado e livre de venenos. Mãe de três filhos, ela sabe a potência do alimento preparado com carinho. Mas, diante de tantos desafios colocados à agricultura familiar no território brasileiro frente à pandemia mundial, o que faz com que a FAE consiga se manter firme em seu propósito há pelo menos 31 anos? Franciele destaca, sem sinais de dúvidas, que é a força da união entre as famílias agricultoras e o público consumidor.

“A FAE foi criada principalmente por iniciativa dos consumidores, descontentes com a alimentação que recebiam. Eles resolveram se unir e buscar agricultores que pudessem produzir para eles. Nesse período, muitos agricultores também estavam descontentes com a forma de produção que praticavam e se uniram com esses consumidores. Ali se criou uma relação muito forte, que vai além da comercialização ou de um simples espaço de venda de produtos. Existe um amor recíproco entre quem vende e quem compra os produtos. É uma troca. E é essa força e essa energia que faz com que a feira possa atravessar qualquer tipo de adversidade”, afirma Franciele.

A FAE é uma das nove feiras que compõem o Conselho de Feiras Ecológicas (CFE) de Porto Alegre e, não à toa, serviu de referência para a criação das outras que surgiram em seguida: Feira Ecológica do Bom Fim, Auxiliadora, Menino Deus, Petrópolis, Rômulo Telles, Três Figueiras, Tristeza e Park Lindóia. Elas acontecem em distintos bairros da cidade, comercializando alimentos de qualidade produzidos por aproximadamente 500 agricultores familiares de quatro regiões do estado: Metropolitana, Litoral, Serra e Vales. Antes da pandemia, a FAE atendia a um público semanal de mais de 10 mil pessoas. A dimensão da história da FAE, junto com a história das outras feiras que vieram a se somar com o tempo, representa para Franciele a memória compartilhada da própria história de vida.  

“A feira nasceu antes de mim. Eu cresci junto com ela e com todo esse movimento. Eu fico muito emocionada de falar sobre isso porque é um legado tão bonito, de conexão. Eu queria muito ter um irmão e eu não entendia porque meus pais não podiam me dar um irmão quando criança. Porém quando eu cresci e comecei a assumir a propriedade e o negócio da família, fui participando nas reuniões e das atividades e percebendo que o irmão que eles me deram é esse projeto tão lindo. Há mais de 30 anos, meu pai foi o primeiro proprietário de casa natural em Antônio Prado, uma cidade minúscula de cultura italiana muito forte e acredito que foi um dos primeiros da Serra Gaúcha. Meus pais eram vegetarianos e já implementavam alimentação natural na família, algo tido como coisa de louco na época. Então, hoje é uma honra para mim levar à frente esse legado que me trouxe até aqui”, emociona-se Franciele, que atualmente preside a Associação Agroecológica, organização responsável pela gestão da FAE.

Caminhos de resistência

A consciência do público consumidor que deu origem à FAE no final da década de 1980, fortemente influenciada pelas ações do movimento ambientalista gaúcho, permanece viva de geração em geração e foi o fator primordial para impedir o cancelamento das atividades diante da pandemia, realidade que muitas famílias agricultoras tiveram que enfrentar frente a governos que adotaram medidas com pouco ou nenhum canal de diálogo. “No início da pandemia, o prefeito de Porto Alegre criou um decreto que proibia agricultores de outras cidades de participarem das feiras. Porém, 90% dos agricultores que fazem feira são de outros municípios, de Porto Alegre são muito poucos. E a maior pressão para que isso não acontecesse veio dos consumidores, porque queriam continuar se alimentando com a nossa produção. Então, através de uma forte pressão dos consumidores e dos agricultores, o poder público voltou atrás”, relembra Franciele.  

O “Plano de Contingenciamento de Danos relativo ao Coronavírus”, criado pelo Conselho de Feiras Ecológicas do Município de Porto Alegre/RS – do qual a FAE faz parte -, definiu uma série de medidas de proteção desde o processo de transporte e logística dos alimentos até a total reelaboração da conformação da feira. Entre os cuidados adotados estão o aumento do distanciamento entre as bancas, redução do número de agricultores comercializando, fornecimento de materiais de limpeza, aumento no uso de embalagens, cancelamento de degustações e atividades culturais, criação de um sistema de pré-encomenda dos produtos para rápida retirada no dia da feira e a produção de uma forte campanha de orientação aos consumidores, seja na feira ou nas redes sociais. 

Outro desafio enfrentado pelas famílias agricultoras foi a suspensão das tradicionais visitas que eram realizadas para que o público consumidor conhecesse de perto o processo de produção do alimento a ser adquirido. “De tempos em tempos, a gente organizava saídas de campo onde as pessoas podiam trabalhar. Elas ajudavam na colheita do arroz, ou na poda do pêssego, por exemplo,a plantar árvores, enfim tudo o que fosse necessário para se apropriar do alimento. Em tempos de pandemia, suspendemos todas as visitas às propriedades”, explica Franciele. A reação ágil, consciente e unificada à situação emergencial foi fundamental para garantir que, tanto as famílias agricultoras possam escoar seus produtos, quanto as famílias consumidoras continuem se alimentando com comida de verdade. 

Para Mireya Valencia, professora da Universidade de Brasília (UnB) na Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária e presidente da Rede Brasileira de Pesquisa e Gestão em Desenvolvimento Territorial (RETE), a experiência da FAE evidencia o papel ativo do público consumidor nas mudanças necessárias à garantia da segurança alimentar e nutricional da população brasileira. “O que percebemos a partir de experiências como a da FAE são as capacidades da agricultura familiar construídas ao longo do tempo. Capacidades que se destacam quando eles constroem o espaço de diálogo com as instâncias públicas para poder avançar e fazer as necessárias concessões, mas também resistir. Lidar com as limitações, mas encontrando caminhos alternativos. Não se trata só de se manter em um espaço comercial e vender seus produtos, porque a agricultura familiar no Brasil é a nossa principal fonte de fornecimento de alimentos e garantia da segurança alimentar das famílias brasileiras. Abastecer com comida de verdade é resolver ao mesmo tempo uma série de problemas desde questões de saúde, a econômica e os problemas ambientais, transformando assim os sistemas agroalimentares”, explica Mireya.

Doação de alimentos e kits de higiene

A capacidade de resiliência diante dos desafios trazidos pela pandemia percorre o Brasil de sul a norte e de norte a sul. No estado do Tocantins, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) se organiza para distribuir cestas básicas para 180 famílias de diferentes comunidades em situação de vulnerabilidade e 517 kits de higiene e proteção entre 23 grupos familiares assistidos pela CPT. As máscaras de algodão também são produzidas por membros das próprias comunidades assistidas.

A iniciativa da CPT/TO abrange os territórios localizados no nordeste do Tocantins, mais especificamente a região de Araguaína, Palmeirante, Campos Lindos, Colinas, Ananais, Filadélfia, Babaçulândia e Bielândia. São famílias posseiras e acampadas em territórios de forte mobilização, como as comunidades tradicionais da Serra do Centro, em Campo Lindo; a comunidade quilombola de Brotão; o assentamento Luar do Sertão, em Ananais; e o acampamento Gabriel Filho, do assentamento Deus é Grande, entre outras comunidades tradicionais. 

Os itens adquiridos junto à agricultura familiar e que compõem a cesta básica das famílias do nordeste tocantinense demonstra a dimensão das heterogeneidades características dos sistemas agroalimentares no Brasil, que se manifesta de maneira particular nos diferentes territórios. Farinha, farinha de puba, farinha seca, inhame, batata doce, feijão, mandioca, azeite de coco e babaçu são alguns desses alimentos que, além de serem nutritivos e saudáveis, possuem forte representação simbólica para a identidade cultural local. Já os kits de higiene e proteção são compostos por máscaras produzidas localmente, água sanitária e álcool em gel. A iniciativa conta com o apoio de parceiros como o Instituto Clima e Sociedade (ICS), Misereor, Fastenopfer, Articulação das CPTs do Cerrado e Articulação das CPTs da Amazônia. Os alimentos são, em sua maioria, adquiridos junto às famílias produtoras da região. 

De acordo com Felipe Oliveira, membro da CP/TO, a geração de renda é vista como princípio de ação. “Em meados de maio, fomos provocados pela Campanha Nacional em Defesa do Cerrado a mapear a situação das comunidades no tocante à proteção contra o contágio do coronavírus. A partir de diálogos e questionários aplicados, percebemos que a geração de renda era uma dificuldade gritante, pois muitas comunidades rurais do Tocantins já tinham essa dificuldade e o auxílio emergencial nunca chegou em muitas casas onde deveria ter chegado. Adquirir os produtos da própria agricultura familiar foi a saída que encontramos para fortalecer essa geração de renda nas próprias comunidades”, afirma Felipe ao destacar que, no contexto da pandemia, o vírus não é o único inimigo que demanda a proteção dos grupos familiares. 

“Para muitas pessoas, é mais fácil manter o isolamento social. Mas as famílias do campo, por mais que tentem, precisam lidar com as invasões, queimadas, grilagem de terras, ameaças. Os conflitos por terra não tiveram nenhum tipo de pausa com a pandemia, muito pelo contrário. Por isso, a importância de fazer esse mapeamento das famílias afetadas, não só pela pandemia, mas pelos impactos intensificados com a situação”, complementa Felipe.

“Aí está a importância do mapeamento das experiências de abastecimento alimentar no Brasil, porque é o que nos mostra também a dimensão das redes de produção e acesso ao alimento. Para que os tomadores de decisão consigam compreender que não é com alimentos ultraprocessados que se vai matar a fome. Pois são justamente as redes do agronegócio que causam muitos dos impactos sociais, ambientais e econômicos sentidos pela população mais vulnerável”, explica Mireya.

Mapeamento do abastecimento alimentar

O mapeamento de experiências de abastecimento alimentar conduzido pela “Ação Coletiva Comida de Verdade: aprendizagem em tempos de pandemia” busca não apenas a identificação de experiências como a da FAE, em Porto Alegre, que se caracteriza pelo fortalecimento das redes de comercialização da agricultura familiar, ou a da CPT, no Tocantins, com vistas à doação de suprimentos necessários à proteção e segurança alimentar a famílias em situação de vulnerabilidade. Mas também apontar caminhos à transformação dos sistemas agroalimentares e incidir sobre a formulação e execução de políticas públicas. 

Por isso, a equipe da “Ação Coletiva Comida de Verdade” intensifica a comunicação e o convite para que as/os protagonistas das diferentes experiências que vêm sendo iniciadas ou intensificadas com vistas ao abastecimento alimentar da população brasileira com alimento saudável e livre de venenos participem desse mapeamento. Para participar, basta preencher o formulário disponível na plataforma  Agroecologia em Rede (AeR), um sistema integrado de informações sobre iniciativas de agroecologia e que reúne mais de 1.600 experiências de base popular e agroecológica.

Para dar conta da imensidão do mapeamento, cada região do Brasil contará com um/a articulador/a, cuja missão é mobilizar e incentivar as/os agricultoras/es, consumidores, membros de comunidades tradicionais, associações de bairro, conselhos alimentares, organizações da sociedade civil e movimentos sociais a contribuírem com o cadastramento das experiências. Potencializando assim a diversidade de vozes, trajetórias e experiências presente em cada canto desse país.    

“Esse amplo e intenso trabalho de mapeamento nos mostra que é possível, sim, adotar medidas que garantam a conexão entre saúde, nutrição, sustentabilidade e justiça social. E você consegue agregar tudo isso a partir de uma lógica territorial construída pelo nexo dessas diferentes e fundamentais dimensões. Não falamos só de levar o alimento, mas que tipo de alimento, de que forma se produz, de que forma você entrega e como tudo isso contribui para solucionar os inúmeros problemas ambientais que enfrentamos”, explica Mireya.

Os dados coletados pelo mapeamento nos diferentes territórios deverão contribuir para a observação e compreensão das estratégias adotadas pelos diferentes atores que compõem o sistema agroalimentar, servindo de inspiração para outras experiências e fornecendo subsídios para que o estado e diferentes organizações possam atuar de forma mais efetiva, seja no contexto da pandemia ou para lidar futuramente com situações similares. Além disso, deverão orientar estudos acadêmicos voltados à reflexão sobre os processos de transição para sistemas agroalimentares enraizados nos territórios e a serviço das necessidades da população e caminhos para o seu fortalecimento. 

Organizações

A “Ação Coletiva Comida de Verdade: aprendizagem em tempos de pandemia” é composta pela ActionAid Brasil, Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável, Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), Associação Brasileira de Agroecologia (ABA-Agroecologia), Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Centro de Referência em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Ceresan/UFRRJ), Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (FBSSAN), Grupo de Estudos em Agricultura, Alimentação e Desenvolvimento (Gepad), Instituto Ibirapitanga, Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutricional (Opsan/UnB), Observatório de Desenvolvimento Regional (Observa DR), Rede Brasileira de Pesquisa e Gestão em Desenvolvimento Territorial (Rete), Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PenSSAN).

Fonte: Ascom/Ação Coletiva Comida de Verdade
Foto de capa: Acervo/Feira dos Agricultores Ecologistas de Porto Alegre (FAE)

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